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domingo, 20 de janeiro de 2013

Resenha #34 Coraline (Neil Gaiman)

"Desde que quatro crianças irlandesas descobriram a terra encantada de Nárnia, ninguém iniciava uma viagem fantástica num simples abrir de porta. E desde que Alice seguiu o coelho, ninguém enfrentou coisas tão extravagantes e assustadoras. Você não tem que ser criança para se render ao encanto de Gaiman em 'Coraline'. Entre por essa porta e acredite no amor, na magia, e no poder do bem sobre o mal."

Hola...
Hoje trago, mais uma vez, Neil Gaiman e sua excepcional escrita.

O primeiro livro deste autor fantástico que tive a oportunidade de ler foi "O Mistério da Estrela" (excelente), depois "Lugar Nenhum" (não preciso nem comentar)... e cada vez que me deparo com outro escrito surpreendo-me e maravilhada fico com tamanha qualidade! (Comprei vários livros do autor. Será um encanto após o outro. Tenho certeza!).

Coraline segue a mesma linha de "Lugar Nenhum", a do fantástico, com um toque de terror... Porém, com uma linguagem acessível ao público juvenil. Linguagem simples, clara e maravilhosamente construída de modo a prender toda a atenção de forma que esquecemos que estamos vivendo. Um livro fininho, pouco mais de 150 páginas, li em um dia, rapidinho...

Coraline vive com seus pais e muda-se para um apartamento muito antigo, uma espécie de casarão. Também outras pessoas tem apartamentos nesse "suposto" prédio: as senhoras Spink e Forcible, ex-atrizes, moravam no apartamento abaixo do de Coraline. Senhoras simpáticas, gorduchas e velhinhas, vivam com alguns terriers escoceses: Hamish, Andrew e Jock. No apartamento de cima, vivia um velho maluco que dizia ter um circo de ratos, mas não deixava que ninguém os visse.

A menina Coraline era uma "exploradora", como por diversas vezes o autor nos conta. Ao explorar a casa "nova" (que de nova nada tinha), ela encontra um porta, onde sua mãe diz que não dá em nenhum lugar, pois atrás dela só há uma parede de tijolos. Muito curiosa, a menina, quando encontra-se sozinha na casa, pega a chave e abre a misteriosa porta. E vê somente escuridão. Sua sede por descobertas a faz adentrar no corredor sem luz. Quando, enfim, seus olhos podem enxergar algo, vê que está no seu apartamento, porém ele encontra-se estranho. É como se ela estivesse em um lugar diferente, mas muito parecido com sua casa. Há duas pessoas muito parecidas com seus pais, porém mais "assustadores". Eles têm, no lugar dos olhos, dois botões negros costurados...

Lá, no mundo paralelo, tudo parece ser muito divertido. A sua "outra mãe", como é chamada no livro, deseja que Coraline permaneça nesse mundo para sempre. Ela promete ser uma ótima mãe. Mas para isso só uma condição. Que os olhos da menina sejam trocados por dois botões, também. Então, coloca sobre a mesa: agulha, botões e uma linha preta. 


"Ao aproximar-se na coisa na parede, percebeu que tratava de uma espécie de casulo, como uma bolsa de ovos de aranha. Contraía-se ao contato com a luz. Dentro do casulo, havia algo que se parecia com uma pessoa, porém uma pessoa com duas cabeças, com o dobro de braços e de pernas que deveria ter. (...)
'Talvez não haja nenhuma alma escondida aqui', Corline pensou. 'Talvez eu possa sair e ir para outro lugar'. (...)
Seu coração batia forte no peito. Avançou mais um passo. Nunca se sentira tão apavorada, mas, mesmo assim, seguiu em frente até chegar ao casulo." (p. 98-99)


Mas a "outra mãe" não é tão boa assim. Ela aprisionou os pais verdadeiros de Coraline. Então, a mocinha passa a tentar, de todas as formas, salvar seus pais... Na narrativa, encontra almas no armário... Passa por coisas bizarras...

"Coraline voltou as costas para a porta e começou a correr tão rápido quanto era viável pelo corredor escuro, deslizando a mão pela parede para garantir que não ia esbarrar em nada, nem mudar de direção na escuridão. 
Era uma corrida esforçada, e parecia a Coraline que se estendia por uma distância maior do que era possível a qualquer coisa. A parede que ela estava tocando parecia-lhe quente e macia agora, e, Coraline percebeu, parecia coberta por um pelo felpudo. Mexia-se como se estivesse respirando. Coraline retirou rapidamente a mão. (p. 130)


É fantástico! Leitura altamente recomendada!! É uma aventura. Um livro perfeitamente construído!

Há uma animação lançada em 2009. Eu ainda não assisti, mas tenho a impressão de ser uma leitura bem construída sobre o livro. Segue o Trailer para animar e instigar muito mais essa incrível aventura no universo realizado em letras, de Gaiman...



Espero que tenham gostado... Espero muito mais que quem ainda não leu, se entusiasme para ler, pois não irá se arrepender...

Coraline
Autor: Neil Gaiman
Editora: ROCCO
Ano: 2003
Páginas: 157








sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Resenha #27 - Lugar Nenhum (Neil Gaiman)



“Richard escreveu mais uma vez em seu diário mental. Hoje, pensou ele, eu sobrevivi a andar numa prancha, ao beijo da morte e a uma demonstração prática sobre como causar dor a uma pessoa. Neste momento, estou atravessando um labirinto com um canalha biruta que voltou dos mortos e uma guarda-costas que revelou ser... bom, o contrário de uma guarda-costas. Eu me sinto como um peixe fora d’água, tanto que... Ele não conseguiu achar as metáforas certas. Richard tinha saído do mundo das metáforas e entrado naquele onde as coisas simplesmente são, e isso provocava mudanças nele.” (p. 277)



¡Hola!
Esta semana conclui a leitura de um livro simplesmente FANTÁSTICO, nos dois sentidos que a palavra acarreta. “Lugar Nenhum”, primeiro romance de Neil Gaiman. Primeiro por suas criaturas irreais, segundo por sua história impressionante. Não sei nem como resenhar um livro que mexeu tanto comigo, como este conseguiu. Mas tentarei.

Demorei a ler (cerca de 3 semanas) porque não queria que a história terminasse. Lia um pouquinho de cada vez. A cada capítulo, dava uma pausa e absorvia as situações retratadas no romance. Nesse absorver encontrava-me absorta... Cheguei a sonhar diversas vezes com o livro... Engraçado é que, em uma das passagens sombrias da obra, estava eu a voltar para casa da faculdade, no ônibus, altas horas da noite... (Como estudo em outra cidade, demora um pouco para chegar em casa...) Li e cochilei... Quando acordei, já estávamos em nossa cidade, mas tudo estava completamente escuro, que cheguei a pensar que não havia acordado e que era um sonho ou que eu estava vivenciando “Lugar Nenhum”... Era só um apagão (para quem não viu nos jornais, ocorreu neste mês em praticamente todo o Nordeste).

Mas não vou descrever minhas sensações, vamos ao livro... E vou tentar não contar o principal (ai, será que consigo?)...

Richard Mayhew mudou-se para a bela cidade de Londres. Noivo de Jéssica, vivia uma vida pacata. Trabalhava, acompanhava Jéssica a passeios entediantes a museus... Até que dia, enquanto andava com sua noiva apressadamente a um jantar de negócios de Jéssica, encontrou uma mulher que caíra no chão, mas que parecia ter saído da parede de tijolos. Seu instinto é de ajuda-la, porém Jéssica, egoísta e apressada, não permite. Richard não se contém e volta para ajudar a moça, contrariando sua namorada. Jéssica vai ao jantar sozinha, enquanto Richard, que não tem paciência de esperar a ambulância, ao ver a moça totalmente suja e ensanguentada, resolve carrega-la no colo e leva-la para seu apartamento.  Jéssica rompe o noivado, por telefone, na manhã seguinte.

Um detalhe importante na obra (que amei) é que trata-se de um romance com um desenvolvimento de personagens simultâneo. Em um mesmo capítulo observamos, por exemplo, o movimento de três personagens distintas, em ambientes completamente opostos. Por isso é necessário uma atenção especial ao ler este livro.

A moça que Richard encontrara chama-se Door e vem do “submundo” – a Londres de Baixo. Ela está sendo perseguida por dois personagens ao mesmo tempo cômicos e assustadores: Sr. Croup e Sr. Vandemar, assassinos de aluguel. Nosso herói tenta, de todas as formas, ajudar a garota a se esconder desses homens. Os habitantes do submundo, quando passeiam pela Londres de Cima, são imperceptíveis aos seres humanos. São invisíveis, praticamente. Ninguém os nota, ninguém fala com eles, a menos que esse ser se dirija a alguém,  e mesmo assim, esse alguém o esquece em uma fração de segundos. O fato é que, ao entrar em contato com Door, Richard também assume essas características. Seu apartamento rapidamente possui novos inquilinos que vão adentrando sem notar a presença do rapaz; Jéssica e seus amigos não mais o reconhecem; sua conta no banco não mais existe, muito menos o registro de que algum Richard Mayhew tenha existido...

Door, não quer envolver Richard em sua situação complicada, mas pede-lhe um único favor: que ele encontre o Marquês De Carabas. Richard o faz. Após perceber que não tem mais uma vida na Londres de Cima, decide descer à Londres de Baixo. É aí que as grandes aventuras começam.

O post já está grande e agora que o livro começou... Há tanta coisa a contar... Tantos personagens a apresentar... Tantas emoções a sentir... Mas não posso aqui tudo retratar...

Richard passa por um crescimento pessoal. Encontra seu próprio valor.

Várias personagens vão saindo das páginas. Destaco aqui algumas:
Door = moça já mencionada, busca o motivo do assassinato de sua família.
Marquês De Carabas = homem que cobra favores. Interesseiro. Ajuda para poder cobrar futuramente. Embarca na busca com Richard e Door por respostas.
Hunter = a maior caçadora do submundo. Aparece para ser a protetora de Door.
Sr. Croup e Sr. Vandemar = homens baixinhos, estranhos, mas terrivelmente cruéis. Os maiores torturadores da Londres de Baixo e talvez de todos os tempos de todas as Londres...
Anjo Islington = vem a ser a salvação de Door e a chave para Richard voltar a sua vida normal.

A cada página uma descoberta. Revelações, que nos deixam ansiosos para a próxima ação, ao mesmo tempo que não queremos ir, para que o romance não acabe.

Como me contive...!! Adiei o término da leitura até onde pude... Mas concluiu... E gostei... Muito...

A seguir, uma passagem:

“- Primeiro, três respostas para três perguntas.
Croup assentiu e disse:
- De ambas as partes. Nós também queremos três respostas.
- Tudo bem. E, em segundo lugar, quero salvo-conduto para sair daqui. E você devem concordar em me dar pelo menos uma hora de vantagem.
Croup fez q sim, balançando a cabeça.
- Combinado. Faça a primeira pergunta.
Tinha o olhar fixo sobre a estatueta.
- Para quem vocês estão trabalhando?
- Ah, essa é fácil. A resposta é bem simples. Estamos trabalhando para o nosso cliente, que deseja permanecer anônimo.
- Humpf. Por que vocês mataram a família de Door?
- Ordens do nosso cliente – respondeu o senhor Croup, com um sorriso cada vez mais maquiavélico.
- Por que não mataram Door quando tiveram a chance?
Antes que o senhor Croup pudesse responder, o senhor Vandemar disse:
- Tínhamos que deixar ela viva. Ela é a única que pode abrir a porta.
O senhor Croup fuzilou seu sócio com o olhar.
- Ah, claro, senhor Vandemar. Diga logo tudo para ele.
- É que eu queria falar também – murmurou.
- Certo... Você já tem suas três respostas, e espero que faça bom proveito delas. Minha primeira pergunta é: por que você a está protegendo?
- O pai dela salvou minha vida e eu nunca tinha retornado o favor – respondeu o marquês, sendo franco. – Prefiro que os outros me devam favores.
- Eu também tenho. O habitante do Mundo Superior, Richard Mayhew... Por que ele está com ela? Por que ela permite?
- Sentimentalismo da parte dela – respondeu o marquês.
E, enquanto respondia ficou pensando se era aquilo. Tinha começado a achar que talvez existisse algo mais a respeito do habitante do Mundo Superior que ele não havia percebido.
- Agora é minha vez – disse Vandemar. – Em que número eu estou pensando?
- Como?
- Em que número estou pensando? – repetiu o senhor Vandemar. – É um número entre um e sei lá quantos – acrescentou, prestativo.
- Sete – respondeu o marquês.
Vandemar ficou impressionado. […]” (p. 186-188)

Aproveite para conseguir... Peça emprestado, compre, não sei! Leitura indispensável!!!
Divirta-se... Assuste-se... Tenha nojo... Ria... Emocione-se com mais essa belíssima obra de Neil Gaiman... Boa leitura!!

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Neil Gaiman nasceu em 1960, na cidade de Portchester, Inglaterra. Desde pequeno, demonstrou sua ligação com os quadrinhos. Seu trabalho mais conhecido é "Sandman", que o imortalizou entre os fãs de HQs. Por 75 números, Gaiman e "Sandman" foram se tornando cada vez mais famosos. A série tornou-se o carro-chefe do selo Vertigo, destinado a um público geralmente adulto que não queria mais saber de super-heróis. O autor ganhou reconhecimento da crítica ao receber prêmios ao redor do mundo, entre eles o prestigiado World Fantasy Award, geralmente concedidos apenas a obras em prosa. Entre outros vários trabalhos com HQs, romances e roteiros, Gaiman publicou os livros "Coraline", "Deuses Americanos" e "O Livro do Cemitério".

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